Adoção
    
Segunda, 06 Agosto 2018 12:38

Homens solteiros falam sobre as aventuras e alegrias da adoção



Crianças maiores são as preferidas por esse perfil, segundo Varas da Infância

FONTE: O GLOBO SOCIEDADE - Por: Luiza Souto - Foto: Marcos Alves

Era dezembro de 2013 quando Valdemir Pereira da Silva, 54 anos, convidou sete adolescentes de diferentes abrigos de Guarulhos, em São Paulo, para passar as festas de fim de ano na sua casa, em Santa Isabel, a 60 quilômetros da capital. Já pai de quatro meninas, sendo duas adotadas, ele queria iniciar ali um trabalho com jovens carentes. Mas quando Marcelo Angélico Jesus dos Santos, de 16 anos, lhe pediu para ser adotado junto com um amigo da mesma idade, o comerciante teve uma surpresa que, no fim das contas, o fez aumentar bastante a família.
— O Marcelo pediu para eu adotar o amigo, e não o irmão dele. Eu fiquei surpreso, mas ele disse que, assim, os dois (adotados) poderiam depois ajudar a tirar seus irmãos do abrigo. Resultado: adotei os quatro — conta Valdemir, que depois desse episódio ainda adotou mais uma criança.
A história da família Silva reforça a tendência verificada junto às Varas de Infância, de que homens solteiros adotam crianças maiores — os filhos homens de Valdemir foram adotados com mais de 12 anos. Hoje, segundo o Cadastro Nacional de Adoção (CNA) são pelo menos cinco mil pessoas solteiras na fila de adoção, de um total de 37 mil pretendentes — e 6,9 mil crianças e adolescentes esperando por um lar. Desde 2014 o cadastro não especifica o gênero dos pretendentes, mas, naquele ano, dos 31,6 mil inscritos, 202 eram homens solteiros, a maioria entre 31 e 50 anos de idade, dos estados de São Paulo, Minas Gerais Paraná.

Hoje, Dia dos Pais, a comemoração é grande na casa de Valdemir:
— Olho para ele com esperança. Meu pai morreu, minha mãe tem problemas e eu nem acreditava mais em Deus, muito menos que ia ser adotado — desabafa Marcelo, um dos filhos que irá preparar o almoço especial, no sítio da família.

A primeira adoção feita por Valdemir veio quando ele ainda era casado, há 19 anos. Já pai da estudante de Psicologia Bruna Tamarys da Silva, de 25, ele soube que a mãe de Vanessa Karoline, hoje com 26 anos, não poderia mais cuidar da criança por problemas de saúde, e recebeu autorização da família da menina para ficar com ela. Situação parecida viveu com Deborah Gabriely da Silva, 21, que chegou à casa de Valdemir ainda na barriga da mãe. “Mas todas adotei legalmente”, garante o comerciante.

Depois do nascimento de sua segunda filha biológica, Bárbara Danielly da Silva, de 18 anos, o casamento de Valdemir acabou. A decisão de adotar mais cinco crianças veio há três anos, após Bruna ser atingida por uma bala perdida em Guarulhos. Ela chegou a ser desenganada pelos médicos e, para ter a menina de volta, Valdemir diz que colocou na lista de promessas a dedicação a crianças carentes. Com a saúde da filha restabelecida, convidou os sete jovens para a tal festa de fim de ano.

— Pedi ao juiz da Vara da Infância para me indicar crianças que ninguém queria. Decidi pela adoção tardia porque eles começam a entrar em depressão no abrigo com o passar do tempo, sem saber para onde ir depois que completarem 18 anos. Infelizmente, as pessoas só querem adotar os pequenos — lamenta Valdemir.

APTIDÃO PARA ADOÇÃO

Também solteiro, o professor de Artes Robson Moro, de 30 anos, figura nessa lista de pretendentes há 13 meses. Ele saiu da casa dos pais em Jales, a 545 quilômetros de São Paulo,em 2014, com o intuito de se preparar para a paternidade. Fez cursos destinados a pais de primeira viagem e já preparou o quarto para um menino de até 5 anos, exigência que fez à Vara da Infância.

— Desde pequeno quis ser pai. Como sou homossexual, a ideia da família tradicional se foi. Até achei que isso seria um problema, mas nas entrevistas que fiz na Vara da Infância a juíza deixou claro que não nos avalia pela opção sexual, mas se estamos aptos para a paternidade — emociona-se Moro.

— A adoção não é ato de caridade, mas de amor. Se você quer ser pai não deve escolher as características da criança. Você não está comprando um produto. Estou decidido a acolher quem tiver que ser — diz ele.

A juíza Dora Martins, que foi titular da Vara Central da Infância e da Juventude de São Paulo, diz que, pretendente solteiro ou casado, o importante é que a Justiça trabalhe a favor das crianças.

— Trabalhamos para que a criança consiga uma família, não de acordo com o desejo dos futuros pais — afirma.

Caçula de cinco irmãos até os 14 anos, o cabeleireiro Marcos Colli, de 48, conta que cresceu com a ideia fixa de adotar ao menos uma criança para seguir o exemplo de seus pais, que no início de sua adolescência levaram para casa mais um herdeiro. Em 2004, recebeu Carlos, então com 2 anos. Camila, hoje com 11 anos, veio em 2006.

— Ela menstruou dia desses e quem ficou desesperado fui eu, mas minhas irmãs e mãe dão todo o suporte, conversam de tudo com ela. Fiquei com dó quando levei ao médico, ele disse que ela não ia crescer muito. E a Camila só tem 1,48m, começou a chorar — riu o cabeleireiro, ao lembrar das aventuras de um pai solteiro.

— Já o Carlos está em período de provas e ficou em recuperação em seis matérias. Ele se apaixonou por uma menina, mas ela não quer nada com ele. É um barato. São dois seres humanos incríveis e me ensinam muito — completa ele, que viu seu casamento de 12 anos ruir quando decidiu pela adoção:

— Não estava no planejamento do meu parceiro ter uma família.

DIVERSIDADE NOMEADA

Eduardo Rezende, de 48 anos e morador do Centro de São Paulo, reflete sobre as novas formações de família. Realizado profissionalmente e sem companhia, ele conta que faltava um filho em sua vida. Aos 40 anos, recebeu Felipe, hoje com 6 anos. Dois anos depois, Pedro, de 5, completou o time.

— Quis dois porque achava importante essa circulação de energia — justifica ele. — Nunca aconteceu de eles precisarem de uma figura materna porque têm babá, tias e muitas figuras femininas conosco. A gente também lê muito sobre as configurações familiares. E procurei pessoas que vivem nessa situação para eles perceberem que existem outras iguais. A diversidade está presente, só precisa ser mais nomeada — ensina.

De acordo com o Código Civil, todas as pessoas com mais de 18 anos podem adotar, desde que haja uma diferença de 16 anos entre elas e a criança ou adolescente. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, o processo de adoção para os solteiros leva o mesmo tempo que para os casais.
Viver amor na família

O amor que nos une, nos torna uma família.

FAMÍLIA
Lei nº 12.010 de 2009 - Artigo 25 : "Entende-se por família extensa ou ampliada aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade." (Incluído pela Lei nº 12.010, de 2009)

“Na estação da vida fomos atraídos pelo vagão do destino que nos levou para uma maravilhosa viagem de encontro ao amor.”