Adoção
    
Domingo, 24 Março 2019 03:53

Amor escolhido: Grupo de apoio ajuda futuros pais no processo de adoção em AL


FONTE: GAZETA WEB 

A adoção é um sinal de amor. Adotar também é um ato de coragem e de muita responsabilidade. É preciso ter a mesma vontade que se tem ao gerar em seu ventre um bebê. É amor que conquistado, do encontro predestinado entre a mãe, o pai e o filho. É uma escolha de amor.

Passar por todo processo de adoção tendo apoio de profissionais é de extrema importância. Por isso, em vários estados do Brasil existem grupos que dão suporte aos futuros pais mães. Em Alagoas, o Grupo de Apoio à Adoção de Alagoas, da 28º Vara Cível da Capital - Infância e Juventude - tem papel fundamental no acompanhamento tanto da família quanto da criança a serem adotadas.

O grupo, criado há pouco mais de dois anos - no dia 25 de maio de 2016 - , conta com profissionais em várias áreas, como assistentes sociais, psicólogos e psicopedagogos, capazes de melhor avaliar os interessados em adotar. Eles fazem reuniões uma vez por mês, na sede da própria Vara, e promovem cursos preparatórios e obrigatórios para futuros pais, além da troca de experiência e o compartilhamento de vivências boas e ruins dessa fase.

"O objetivo é dar suporte, uma sustentação para os pretendentes à adoção e os pais já adotivos, que estão passando por essa fase de adaptação, onde a gente debate, conversa e através de exemplos a gente tenta auxiliar. É um grupo de apoio tanto para pretendente como para os pais adotivos e para aqueles que ainda estão aguardando", expõe a psicóloga e coordenadora do GAAAL, Fátima Malta.

A atuação do grupo tem sido bem vista e aceita também pelas instituições que acolhem crianças e adolescentes em Maceió. Reuniões realizadas entre representantes de abrigos e o juizado têm dado segurança e orientação sobre como conduzir todo processo de adoção, explica Selma Brito, presidente do Lar Batista Marcolina Magalhães, que abriga, atualmente, 20 meninas habilitadas para adoção.

"O grupo tem dando um norte para que a gente, enquanto instituição, fique com muita segurança de como conduzir em cada momento desse em que aparecem adoções, então a gente sente mais segurança de caminhar nessas situações. Toda avaliação do que a gente vê no dia a dia das meninas do lar, na medida que vamos passando para o juizado, a gente já vai tendo esse suporte. Acontece também o entrosamento de outros juizados de outros estados com o daqui, e já tivemos, inclusive, meninas que já foram adotadas por conta dessas parcerias".

Adoção tardia

Quando falamos em adoção, imediatamente, vem no pensamento um bebê ou uma criança de até três anos como o perfil mais procurado entre os pretendentes à adoção. O número de crianças que se encaixam nesse biotipo são poucas, o que faz com que o processo de adoção para quem escolhe esse perfil seja ainda mais demorado. A adoção tardia ainda é uma barreira a ser quebrada pelas instituições e juizados especializados em adoção. Muitos desses adolescentes vivem parte de sua vida sem saber o que é ter um lar.

Segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção, existem no Brasil mais de 4.500 crianças disponíveis para adoção com idades entre 5 e 17 anos. Em Alagoas, existem 43 crianças entre todas as faixas etárias. A adoção tardia ainda é um obstáculo difícil de ser ultrapassado, mas não impossível.

Por ser um perfil pouco escolhido pela maioria das pessoas que querem adotar, muitos deles ficam até os 18 anos em abrigos. Sem família, amor de pais, sem lar. Mas Fátima Malta, que trabalha com essa faixa etária, disse que essa realidade, aos poucos, vem mudando. Entretanto, o caminho a percorrer ainda é longo.

"Hoje melhorou, mas, geralmente, eu consigo encontrar pais em busca desse perfil fora do estado, através da Associação Nacional de Grupo de Apoio à Adoção (ANGAAD) que tem grupos em todo Brasil e essas crianças, praticamente, inadotáveis, que estão em dificuldades de serem adotadas pela idade, por algo especial, às vezes pela própria dificuldade jurídica de não estarem destituída do poder familiar. Essa é a grande dificuldade desse perfil, geralmente o pessoal de fora adota com a idade mais elevada e casais homoafetivos também. Em Alagoas, as pessoas ainda não têm essa cultura" explica.

A adaptação da criança mais velha no novo lar também é acompanhada pelo grupo e uma das maiores dificuldades quando se fala em adoção tardia é o medo de ser abandonada mais uma vez. Daí a importância do grupo de apoio nesse momento. A adoção tardia em Alagoas é considerada a partir dos cinco anos, porém em alguns lugares já é considerada após os dois anos.

" A adaptação da criança que sai de um meio, muitas vezes sem regras, sem controle, sem nada e vai para um abrigo, com regras, mas que não é uma casa, uma família que põe outro tipo de regra. E a adaptação do "não pode", "do que pode", a hierarquia entra em conflito e muitas vezes eles começam a fazer uma série de teste com aquelas pessoas para ver se realmente são amadas e se não vão ser abandonadas de novo".

Muitas crianças chegam a recusar a adoção, conta a psicóloga. "Elas pedem pra ir embora, dizem que são mais felizes no abrigo, que gostavam mais das tias do abrigo. Essa preparação que a gente dá no grupo, vem muito da dificuldade das pessoas aceitarem. A gente também orienta terapia de suporte porque, em algum momento, vai haver esse confronto 'você não é minha mãe', então você tem que ter muita consciência do que quer", pontuou.

A juíza da 28ª Vara da Infância e da Juventude, Fátima Piruá, disse o número de pessoas cadastradas no Cadastro Nacional de Adoção (CNA) é muito maior quando se fala em adoção tardia e a procura por esse perfil nem tanto.

"Nessa fase da vida deles é muito difícil conseguir pessoas que queiram adotar". Segundo ela, diversas ações têm sido realizadas pelo juizado para quebrar os paradigmas com relação a busca do perfil ideal. "Em todas as entrevistas, conversas, cursos que a gente faz quando essas pessoas vão ser habilitadas, a gente mostra que não é bem como as pessoas pensam que não dá certo a adoção de pessoas com idades mais avançadas. A gente faz toda uma sensibilização".

A juíza ainda conta que existe um projeto para divulgar fotos e vídeos nas redes sociais com o objetivo de mostrar para o mundo essas crianças que estão nas longas filas de espera por todo país.

"É um projeto para que a gente possa divulgar vídeos, mensagens, falas e fotos dessas crianças maiores e adolescentes que têm dificuldades de serem adotados para jogar nas redes sociais, porque eu acho que vai ser uma ótima maneira de conhecê-los. Até mesmo o novo do CNA que está sendo implantado no país todo, vai facilitar que a gente coloque isso e o habilitado pode visualizar para que ele se sensibilize. Uma coisa é você saber que tem crianças maiores no abrigo, outra coisa é você ver essa criança, ouvir, é interagir com ela. Então, nós estamos muito esperançosos de que, com isso, a gente consiga sensibilizar, porque quem está com o coração cheio de amor para adotar, pode abrir um pouco mais para essa faixa etária".

Amor escolhido

A assessora comercial Lígia Maria, de 36 anos, adotou um casal de irmãos. Ela conta que foi importante a passagem pelo grupo de apoio. "Nós trocamos muitas experiências, tanto de quem passa por problemas, como quem está na ansiedade com a espera, com quem adota crianças especiais", conta ela, que optou pela adoção tardia - crianças acima de 5 anos. "Nós estamos implantando na cabeça das pessoas que a adoção tardia é uma coisa boa. As pessoas precisam ter essa cultura".

A chegada dos irmãos na vida de Lígia foram em diferentes momentos, mas com o mesmo amor e dedicação. O processo do primeiro filho, Roneilson Silva (que se chamará Roni Keven, após a adoção definitiva), que tem 17 anos, iniciou em julho e ela teve dada pela justiça a guarda provisória em agosto do mesmo ano.

Mãe e filho se conheceram num projeto social da faculdade que Lígia estuda. "Ele foi uma das últimas crianças que eu vi no projeto e nós tivemos uma identificação muito boa e daí pra frente eu já plantei no meu coração a ideia de que queria adotá-lo", conta Lígia.

Ela conta que não tinha pretensão de adotar duas crianças, até mesmo pelo lado financeiro. "Eu não tinha condições financeiras de adotar a irmã dele, ela também mora no abrigo e tem 12 anos, mas no decorrer do tempo, o sofrimento de separar eles, ela também nunca aceitou uma outra adoção, ela só queria ser adotada se fosse com o irmão e acabou que eu comecei a pegar nos finais de semana, fui me apegando e nós decidimos que também adotaríamos a Maria Paula".

A família estará completa no final do ano, tempo em que a pequena Maria Paula termina os estudos e poderá, finalmente, se juntar a sua nova família.

"A adoção, para mim, é um ato de amor inexplicável. Não consigo explicar como que eu me apaixonei por eles, como que eu amo desde sempre, como se já tivessem nascido de mim. Então, é uma identificação, um encontro de almas. Aquela criança foi determinada para ser meu filho e agora a Maria Paula, por ser irmãzinha dele, cada dia que passa eu me apaixono mais por ela. Estou amando a ideia de ter uma filha, eu só tenho meninos, filhos de biológicos. E agora tenho quatro filhos. Amo todos como se tivessem nascido de mim", declarou a corajosa mãe.

Não muito diferente de Lígia, a engenheira geóloga Regla Massahud também optou pela adoção tardia. A cubana, com residência permanente no Brasil desde 2008, mora em Maceió com seu esposo Luiz Carlos Massahud há cinco anos. Ela conta que entrou no CNA no início de 2017, mas que a ideia da adoção surgiu dois anos antes. A professora também faz parte do grupo de adoção e foi a partir dele que ela conheceu seu filho Jadson, de 11 anos.

"Em uma das reuniões do grupo passaram fotos de crianças que estão disponíveis e eu vi a foto do Jadson, muito sorridente e era um menino sozinho, diferente de tantos outros ali que tinham irmãos, isso me chamou atenção porque meu marido e eu já temos idade, passamos de 50 anos, e a gente queria mesmo adotar apenas uma criança".

A preferência do casal foi totalmente diferente do perfil padrão que a maioria dos pretendentes impõem.

"A minha preferência e também do meu marido era por menino, que fosse com mais de seis anos, de preferência negro ou mestiço, porque eles realmente tem um pouquinho mais de dificuldade para serem adotados. Ao ver a imagem do nosso filho, que é índio, entramos em contato através do grupo e da casa de abrigo que ele estava inserido e iniciamos todo processo".

Jadson vivia em um abrigo no município de Campo Alegre e desde dezembro de 2017, quando foi concedida a guarda provisória, que o menino vive com o casal. Após um ano, finalmente, o casal está prestes a ter sua família definitiva.

"Nós estamos, depois de um ano de estágio de vivência, aguardando a audiência, dia 12 de dezembro, para ser definido processo definitivo de adoção", conta, sorridente Regla.

Projeto padrinho - "Tornar visível crianças invisíveis"

Muitas crianças passam muito tempo dentro de abrigos e longe da convivência e apoio familiar, longe também da sociedade, sofrendo por um futuro incerto, sem saber se conseguirão uma nova família ou mesmo se retornarão para suas famílias biológicas. Dessa forma, foi criado o projeto chamado "Projeto padrinho", que tem como objetivo mostrar à sociedade a realidade de crianças e adolescentes. O requisito para ser padrinho, no entanto, é ser maior de 18 anos, apadrinhar um perfil diferente da sua habilitação (caso esteja habilitado na adoção).

O projeto faz a aproximação entre quem quer ajudar, seja de forma afetiva, sociais e financeiro, proporcionando uma relação direta entre o padrinho e a criança ou adolescente para construção de laços afetivos, apoio material e financeiro. Nesse caso especificamente, somente podem ser apadrinhadas crianças a partir de seis anos de idade, além de adolescentes em processo na vara da infância e juventude. Podendo o apadrinhamento ser para um ou mais abrigados.

"Foi criado esse projeto para que as pessoas possam apadrinhar essas crianças maiores, a partir de seis anos, que é justamente a faixa etária mais difícil de ser adotada, porque as vezes, nesse apadrinhamento, que não tem nenhum compromisso com a adoção. O apadrinhamento afetivo, por exemplo, é aquele que você pode levar a criança para casa em finais de semana, datas festivas, levar para passear, fazer com que essa criança se socialize" explica a juíza Fátima Pirauá.

O projeto não foi criado com a finalidade de adoção, mas pode ser um meio para adotar, a partir da interação do padrinho com seu afilhado.

"Não é esse o fim, a finalidade do projeto é dar para essas crianças que não tiveram até então possibilidade de ter a família substituta a partir da adoção, é uma maneira dele participar da vida de uma família, de interagir com a sociedade, que é um direito da criança e do adolescente" ressalta a juíza.

Conheça os tipos de apadrinhamentos:

Afetivo: Visita regularmente a criança/adolescente e as leva a participar de ambientes naturais de seus padrinhos. seja família, círculo social, lazer, dentre outros.

Financeiro: É o provedor que dá suporte material e/ou financeiro para suprir a necessidade de seu(s) afilhado(s). Através do custeio de cursos, esportes, estágios, trabalho e outros que venham a ser necessários.

Social e Prestador de serviço: É quem disponibiliza seu trabalho voluntário, atendendo as necessidades de seus apadrinhados de forma individual, em grupo ou na própria entidade de acolhimento. Exemplo: médicos, dentistas, professores, cabeleireiros, profissionais liberais e outros.
Viver amor na família

O amor que nos une, nos torna uma família.

FAMÍLIA
Lei nº 12.010 de 2009 - Artigo 25 : "Entende-se por família extensa ou ampliada aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade." (Incluído pela Lei nº 12.010, de 2009)

“Na estação da vida fomos atraídos pelo vagão do destino que nos levou para uma maravilhosa viagem de encontro ao amor.”