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Sexta, 22 Dezembro 2017 15:01

Projeto do Coração

A vida realmente nos reserva muitas surpresas. Quando decidi adotar, por conta de sempre querer ser pai e de poder também ajudar aqueles que estão sem chance de ter um eu não tinha ideia do que sentiria.

No início, me deparei com toda uma documentação a ser apresentada, até atestado médico de saúde e de uma psicóloga tive de apresentar e após algumas entrevistas com uma assistente social e um psicólogo, tanto no Fórum como em minha residência, após um curso de meio período sobre adoção, me submeti ao preenchimento de uma lista, a qual constava todas as características físicas de uma pessoa e naquele momento na verdade eu me via ali como se estivesse escolhendo um filho que estaria por vir. De início eu queria uma criança branca, menino e com até no máximo seis anos de idade.

Enquanto me encontrava para ser habilitado, fiz parte do Grupo de Apoio à Adoção da Cidade, me tornei inclusive Presidente deste grupo e diante das palestras realizadas e da matéria estudada fui me aprofundando no assunto e isso me levou a mudar a minha escolha, mudando meu perfil para uma criança sem distinção de cor, sexo e contando com até doze anos de idade.

Passados essas fases, enfim habilitado para adoção, a ansiedade tomava conta pela expectativa de uma ligação, e não demorou tanto assim para que isso acontecesse e quando dei por mim, estava ali, no Fórum, ao lado de um pequeno de três anos de idade e após poucas visitas ao mesmo no Fórum, passávamos o final de semana juntos em casa e foi, sinceramente, pesado, pois eu vi que não daria conta sozinho, uma pelo fato de ser uma criança hiper ativa e outra pelo simples fato de ele ter duas outras irmãs no abrigo e se referir ao abrigo como sendo a sua casa, para ele, era apenas um final de semana com um “padrinho”. E eu realmente não consegui, como dizem, não deu a liga necessária e aquela aproximação foi frustrada.

Então, eu me senti mal, muito mal e impotente, me senti deverás, imprestável, pois não soube lidar com aquela situação e repensei se queria mesmo ser pai, se estava efetivamente preparado para esse mister.

Continuei as visitas que fazia em um Orfanato na cidade vizinha, foi quando acabei por conhecer um jovenzinho de sete anos e fiquei encantado e inclusive erroneamente ajudei e convenci a irmã dele a ficar com ele, me comprometi a ajudar no que pudesse, porém, ao sair do orfanato, na verdade ele ficou foi comigo durante quinze dias seguidos, porém, a situação e as condições eram irregulares e eu poderia inclusive ser retirado do cadastro nacional da adoção, e encurtando a história, esse jovenzinho hoje está sob a guarda do seu tio.

E mais uma vez eu me senti frustrado, impotente e querendo desistir e simplesmente deixei de atender algumas ligações, pois no fundo eu tinha a esperança de que o jovenzinho ficaria comigo em algum momento, mas o tempo passou e nada aconteceu. Acabei me mudando inclusive de Estado e sai do Grupo de Apoio à Adoção, dando um tempo a esta fase de minha vida.

Então neste ano, após uns três anos habilitado e depois de duas aproximações frustradas, em meados de agosto, eu recebi a ligação de uma das Assistentes Sociais do Fórum aqui da cidade a qual perguntou se eu queria conhecer uma criança, eu então bem daquele jeito “tanto faz como tanto fez” acabei aceitando, porém, sem compromisso e ainda pedi que fosse tudo feito com muita calma, pois já tinha me decepcionado demais.

Quando cheguei no Fórum, primeiro ouvi a história da criança e logo após aceitei o conhecer pessoalmente e chegado o grande dia, quando eu o olhei, eu senti o quanto ele era especial e naquele primeiro momento, ambos com vergonha, ficamos alguns minutos conversando e então aceitamos sair juntos para nos conhecermos melhor. Fui bem claro para ele, no sentido de que ele não teria um pai e uma mãe, mas sim dois pais, tendo em vista que a minha condição, e de que eu inclusive tenho um companheiro, e se vocês soubessem o quanto fiquei preocupado em dizer isso e com receio do que pudesse ouvir, foi quando ele, na sua mais pura inocência me respondeu que não teria problema nenhum pois ele não tinha preconceitos.

Naquele dia eu sai do Fórum extremamente emocionado, queria contar para meu companheiro como tinha sido, porém, as lágrimas escorriam e a voz embargada não me deixavam completar sequer as frases.

No dia 07 de setembro durante o desfile da independência aqui na cidade, me encontrei com ele e após assistirmos o desfile, eu, ele e meu companheiro fizemos nosso primeiro passeio juntos e o dia passou muito rápido. E assim se seguiram alguns finais de semana e a cada conversa, a cada segundo juntos eu ia me dando conta do que estava acontecendo e o quanto me sentia feliz.

Não passou muitos finais de semana e já estava sendo tratado como “pai” e em uma das ocasiões quando lhe indagaram sobre meu companheiro, na maior naturalidade do mundo ele respondeu que aquele também era o pai dele.

Após alguns passeios em finais de semana e feriados, finalmente no dia 01 de novembro ele veio morar conosco e posso afirmar que minha vida mudou, e eu me vi simplesmente pai, com aquelas obrigações que eu tanto almejava, levar na escola, buscar na escola, mas o principal, poder proporcionar tudo aquilo que eu tive e tudo aquilo que eu entendo que faltou em minha vida.

E você não precisa de muito, você precisa do básico, atenção, carinho e amor e gestos simples, como apostar uma corrida, ensinar a atravessar a rua, não aceitar nada de estranhos, ensinar matérias de escola, enfim, me vejo de uma certa forma a proporcionar a base que ele não teve e aquele garoto o qual queria adotar uma criança branca, menino de até seis anos de idade, hoje se encontra com um garoto negro de onze anos de idade e sinto que não só eu e meu companheiro estamos a mudar a vida dele, mas ele principalmente está a mudar a nossa.

E confesso que desde o primeiro momento até agora, passados um mês com ele morando conosco, não há nada, absolutamente nada que eu tenha a reclamar, uma criança inteligente, esperta, educada, carinhosa e extremamente aberta a receber tudo o que nós estamos dispostos a ensinar e lhe dar, o principal, AMOR.

Por: Rogério Gimenez
Viver amor na família

O amor que nos une, nos torna uma família.

FAMÍLIA
Lei nº 12.010 de 2009 - Artigo 25 : "Entende-se por família extensa ou ampliada aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade." (Incluído pela Lei nº 12.010, de 2009)

“Na estação da vida fomos atraídos pelo vagão do destino que nos levou para uma maravilhosa viagem de encontro ao amor.”