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Sábado, 13 Janeiro 2018 19:51

Criança institucionalizada

Por: Shirley Machado
 
Já ouviu falar? Não? Como tudo na vida tem um outro lado, que também precisa ser conhecido, vamos continuar refletindo a respeito.
 
Você sabia que, quando uma criança é encaminhada a uma casa de acolhimento, ela perde TUDO? Perde a única referência de família e afeto que teve na vida. Certa ou errada, aquela família era só o que a criança tinha. Boa ou má, não havia outra. E isso se perde, de uma hora para outra.
 
As crianças são encaminhadas as casas de acolhimento, na maioria das vezes, sem ter direito a qualquer informação. Nada lhes é explicado. Ela é simplesmente arrancada do lugar onde viveu até então e precisa se adaptar a um novo ambiente. Um ambiente onde nada lhe pertence. Um ambiente desconhecido. Solidão ! Incerteza.
 
O que será que passa pela cabeça de uma criança, nessa hora?
 
Existem alguns abrigos muito bons, é verdade.
 
Limpos, bem organizados, com mais recursos, com uma Assistente Social e psicóloga (o) para o atendimento das crianças que ali chegam. Mas, mesmo esses abrigos, estão muito distantes do conceito de LAR.
 
O abrigo é um teto sobre a cabeça, uma cama e alimentação.
 
Crianças abrigadas vão a escola... Mas ninguém acompanha de perto as tarefas e a evolução do aprendizado, até por falta de pessoal e estrutura.
 
Crianças abrigadas não tem um olhar amoroso individualizado. Não tem quem as oriente, acolha, explique. Não tem quem as ouça e compreenda sua dor.
 
E um dia, dizem a ela, com um sorriso, que ela terá um novo pai e uma nova mãe. Mas.... Como assim ?? Por quê? O que aconteceu? Onde estão meus pais? E meus irmãos? O que será feito deles? Ninguém se ocupa em dar respostas a essas perguntas importantíssimas!!!
 
Quando o adotante chega ao abrigo, ele ( a) espera encontrar uma criança bonita, saudável, sorridente e feliz. Uma criança que o receba como quem receba a Luz Divina.
 
O adotante quer agradar, é claro. Se desdobra em carinhos e sorrisos. Traz presentes, fala de um futuro bom, faz promessas.
 
A criança, confusa, segue esse estranho, rumo a outra casa.
 
Talvez em outro Estado. Tudo novo, de novo. Tudo diferente. De novo.
 
Ninguém se dá o trabalho de ensinar a essa criança como se portar nesse novo ambiente. Esperam que ele (a) saiba tudo!
 
Os adotantes sonham com uma criança inteligente. Que tenha as melhores notas na escola, e um desempenho surpreendente.
 
Mas como isso é possível?
 
Sonham com uma criança meiga, tranquila e GRATA!
 
Como isso é possível, para quem vem sendo jogado como peteca, de um lado a outro, sem ao menos compreender as razões de tudo isso?
 
Quem sabe tanto sonho e tantas expectativas irreais sejam úteis aos adotantes, para justificar para os amigos e familiares a escolha "estranha" de acolher uma criança maior.
 
Se esquecem que existe ali um ser humano assustado, indefeso, carente. Um ser humano que PRECISA falar e se expressar para suportar e por fim superar tanta dor e tanta solidão.
 
Um ser humano que PRECISA de compreensão e afeto, carinho e paciência. Muita paciência!
 
Alguém que PRECISA ter uma certeza íntima de que nunca mais ele (a) precisará passar por tudo aquilo de novo. E, sim, eles vão nos testar. Eles precisam que nós, adultos, tenhamos maturidade e firmeza. Eles precisam que nós tenhamos equilíbrio e disposição para perseverar.
 
Eles PRECISAM que nós tenhamos a força de suportar o seu pior, antes de nos revelar o seu melhor.
 
Quem não consegue compreender isso, e não consegue a empatia de se colocar no lugar dessa criança/ adolescente, não quer ter esse trabalho, por favor não adote.
Adotar exige que as pessoas estejam dispostas a construir a vida que desejam.
 
É trabalho árduo, pessoal.
 
Exige empenho, perseverança, e a busca por um conhecimento que ainda não temos.
 
Nada nos chega pronto. Nada está perfeito. Tudo precisa ser construído. Começando do zero. Ensinando o básico. O mais elementar.
 
Adotar é suportar o choro, as birras, a manha, a revolta, a angustia, o medo e a solidão de uma criança.
 
Adotar é acolher a fragilidade da alma, inclusive a nossa própria, para alcançar a superação e chegar a plenitude do amor.
 
As famílias felizes não vivem em um mundo cor de rosa. Elas são, apenas, as famílias que foram em busca do seu melhor, sem medo do trabalho duro. Sem medo de mergulhar fundo. Sem disfarces, sem mentiras.
 
Toda mãe é chata. Toda mãe é uma verdadeira bruxa. Se não for, não está fazendo as coisas como deve.
 
Todo pai é um porre. Se não for, está esquecendo alguma coisa importante.
 
Todo filho dá trabalho e preocupação, desde que o mundo é mundo.
 
Os filhos reclamam dos pais. Os pais reclamam dos filhos. Mas nem por isso se abandonam. Nem por isso desistem.
 
A gente reclama hoje, do que vai sentir saudade amanhã.
 
Preparar um ser humano para a vida é um desafio. E se esse ser humano é uma criança/adolescente que já conheceu o pior lado dos adultos, se já sabe o quão egoístas, despreparados e tolos podemos ser, então é uma tarefa de Hércules! A boa notícia é que após todos os anos de plantio ( eu já mencionei isso? Pois é.... São anos de trabalho duro pela frente), a colheita do amor nos chega farta.
 
E depois de tudo isso, um dia chega o novato para te dizer :
- Você teve sorte, hein....
 
Vamos pensar com mais carinho nas nossas crianças???
Viver amor na família

O amor que nos une, nos torna uma família.

FAMÍLIA
Lei nº 12.010 de 2009 - Artigo 25 : "Entende-se por família extensa ou ampliada aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade." (Incluído pela Lei nº 12.010, de 2009)

“Na estação da vida fomos atraídos pelo vagão do destino que nos levou para uma maravilhosa viagem de encontro ao amor.”