Família
    
Segunda, 20 Novembro 2017 14:58

Os meus, os seus, os nossos

Novas configurações de família chamam atenção para necessidade de mudanças nas leis brasileiras

Jane ama Lívia, que tem dois filhos de dois relacionamentos diferentes. Uma família de quatro pessoas. Rogério ama Weykman, que compartilhava com ele a vontade de ser pai. Hoje são uma família de seis pessoas. Cristina já estava com a vida toda encaminhada, solteira e mãe de um rapaz já crescido. Depois de adotar um menino, forma uma família de três pessoas. Carolina e Flávia se conhecem há muitos anos, e há 10 estão em um relacionamento sério que trouxe na bagagem dois filhos de outros relacionamentos. Mais uma família de quatro integrantes.

Para o Estatuto da Família, apenas Cristina e seus dois filhos fazem parte de formação familiar.

O projeto de lei do deputado Anderson Ferreira (PR-PE), aprovado no fim de setembro, pela Comissão Especial sobre o Estatuto da Família, define entidade familiar como “o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”. Em enquete no site da Câmara, 53% dos internautas concordam com a definição de família proposta pelo projeto. Em 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em seu censo que 60 mil famílias brasileiras eram homoafetivas. Se o Estatuto for sancionado e transformado em lei, aos olhos do Estado essas 60 mil famílias deixam de existir.

A Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas (Abrafh), que desde outubro deste ano tem sede no Rio de Janeiro, surgiu da reunião e organização de grupos de famílias homoafetivas originalmente integrados pelo Facebook, e pretende impedir que o Estado feche os olhos para essas formações familiares. A ideia é reinvidicar, de forma oficial, os direitos e zelar pelo bem-estar das famílias homoafetivas e de seus filhos.

“A gente vislumbrou que existem diversos grupos que lutam contra a homofobia, a violência, mas faltava para as famílias um grupo que as representasse. O objetivo é mostrar que nossa família, nosso amor, é comum. Tudo que acontece em qualquer outra família também acontece na homoafetiva”, detalha Rogério Koscheck, 52 anos, presidente da Abrafh e auditor fiscal da Receita Federal.


Livia Xavier e Jane Amaral se conheceram, namoraram e estão noivas. Hoje, elas moram com os filhos de Lívia, frutos de outros relacionamentos

Enquanto o deputado Ronaldo Fonseca (Pros-DF), relator do texto, defende que “faz-se necessário diferenciar família das relações de mero afeto, convívio e mútua assistência, sejam essas últimas relações entre pessoas de mesmo sexo ou de sexos diferentes, havendo ou não prática sexual entre essas pessoas”, Rogério argumenta que família é qualquer composição unida por amor e afeto, e explica que a associação se faz necessária para preencher as lacunas em virtude da inexistência de leis específicas.

“Não queremos nenhum direito a mais. Queremos que as nossas crianças, nossos adolescentes sejam tratados de forma igual. As composições familiares são tão diversas...Temos que aprender a tratar com naturalidade”, defende.

Há oito anos, o presidente da instituição está em um relacionamento e, há três, em união estável com o hoje marido Weykman Padinho, 38. Com ele, tem quatro filhos, todos adotados. Sobre a relação com as crianças, Rogério é sucinto: “Nós somos seus pais e eles são nossos filhos, como em qualquer família. Simples assim”. “Sempre compartilhamos o projeto de ter uma família com filhos. E nossa opção sempre foi a adoção. Qualquer outra possibilidade, como reprodução assistida, barriga de aluguel... foi totalmente descartada desde o início”, conta.

Ainda muito presos ao modelo tradicional de família, uma parcela da sociedade questiona uma falta de modelos masculinos ou femininos na formação familiar e tem dúvidas quanto à ressignificação das relações de gênero dentro dessas famílias. A psicóloga Carolina Motta garante que uma criança criada só por homens, por exemplo, não tem maior propensão a sentir falta de uma mulher que incorpore o papel feminino na família.

“A família é um grupo de pessoas que vive por afeto. Esses modelos diferentes não causam prejuízo à criança porque o que ela precisa é de investimento afetivo. É isso que realmente faz falta”, esclarece.

A psicóloga faz questão de frisar que, segundo a Resolução n° 01/99, do Conselho Federal de Psicologia, “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”. Logo, é proibido que profissionais da área patologizem comportamentos homoeróticos. De forma clara e direta, “os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento ou cura das homossexualidades”. Carolina defende que o preconceito e os motivos que levam algumas pessoas a se incomodar com essas novas formações familiares e a felicidade alheia estão ligadas a uma questão político-social.

Cristina de Almeida já era mãe de Diego quando conheceu Anderson e decidiu adotá-lo. Atualmente, o trio vive em perfeita harmonia, formando uma família feliz

“Desconstruir essas hierarquias significa tirar certos privilégios de certas pessoas. E essa mudança não interessa a algumas partes da sociedade porque estão confortáveis nessa posição privilegiada”, argumenta.

Moradoras do Fonseca, Flávia Santos, 34, e Carolina Souza, 29, estão juntas há mais de 10 anos. No dia 23 de outubro, durante cerimônia organizada pelo Rio Sem Homofobia – que articula, desenvolve e acompanha as políticas públicas para LGBT – finalmente transformaram a união estável de mais de uma década em casamento civil.

“Já vinha sendo adiado por falta de tempo, e até mesmo um pouco de displicência da minha parte. Agora que estou estudando para prestar concurso público, quero que ela tenha todos os direitos. Só me arrependo de não ter feito mais cedo”, explica Flávia.

Flávia é mãe de dois filhos, um menino de 17 anos, e uma menina de 12, frutos de outro relacionamento. O mais velho não mora com a família, mas a mãe conta que o filho tem uma ótima relação com Carolina. “No dia da cerimônia, ele estava orgulhoso. Meu filho é zero preconceito, muito centrado no que é certo”, orgulha-se Flávia.

E essas novas formações familiares vão além das homoafetivas. Há cerca de um ano, a professora Cristina de Almeida Rodrigues, 52, conheceu Anderson Carlos da Silva, 10. Na época, ela era madrinha do menino pelo sistema de Apadrinhamento Afetivo do Quintal de Ana. Pouco tempo depois do primeiro contato com o garoto, que tem paralisia cerebral, ela optou pela adoção.

“Eu já tinha pensado em adoção, mas há muitos anos. Agora, eu já estava com a minha vida toda encaminhada, acabei o mestrado ano passado, estava com planos de começar o doutorado, e aí ele apareceu. Foi amor. Não dava mais para deixá-lo no orfanato”, recorda Cristina, que como professora do estado conseguiu licença-maternidade para ficar em casa com o menino.

Anderson e Cristina são muito apegados. Mas na equação dessa família tem mais um elemento: o filho mais velho que ganhou um irmão mais novo. Diego Rodrigues da Silva, 26, participou de todo o processo e desde o começo apoiou a decisão da mãe de adotar o menino. Atualmente, os dois são, nas palavras de Cristina, “um grude só”.

“O Anderson chegou para completar o meu espaço de ser filho único. A gente brinca bastante, faz as besteiras juntos. Eu durmo com ele, dou banho, dou almoço”, conta Diego.
Em outro cenário, mas com muito amor também, Jane Amaral e Lívia Xavier, ambas com 24 anos, se viram pela primeira vez em 2013, durante uma festa no Teatro Odisseia. Quatro meses depois deram o primeiro beijo na mesma boate, que fica na Lapa. Cerca de um mês mais tarde já estavam namorando. Antes mesmo do começo do relacionamento sério, Jane já tinha conhecido Mariana e Flávio, filhos de Lívia, que é estudante de Direito. Há 10 meses, os quatro moram juntos. E foi no mesmo lugar onde trocaram o primeiro olhar e o primeiro beijo que Jane pediu Lívia em casamento.

“Nesse período curto, a gente já era uma família. Foi muito natural a nossa relação, principalmente a minha relação com as crianças. Essa questão da identificação, até deles, que são pequenos, me aceitarem como membro da família, foi tudo muito rápido”, diz Jane.

Para o futuro, além dos planos de casamento, as duas até pensam em aumentar a família. Como Mariana e Flávio ainda são muito novos, acabam exigindo muito das duas, que dividem a energia entre o trabalho e as crianças. Novos integrantes, só no futuro. E Lívia conta que a responsável por engravidar seria Jane.

“Se depender de mim, a gente cresce a família mais uma vez, só mais um. Eu não quero mais engravidar, já passei pela experiência duas vezes, mas acho que seria egoísmo da minha parte privar ela da concepção”, conta Lívia.

A adoção também não é descartada por elas. “Eu trabalho em comunidades, convivo com uma realidade que é muito distante da nossa. Eu vejo o abandono e, às vezes, dá vontade de levar todos os meus alunos mais carentes de afeto para casa. Então, a adoção é uma opção”, conta Jane, que atualmente coordena um projeto de educação física em comunidades do Rio.

FONTE: http://www.ofluminense.com.br/pt-br/revista/os-meus-os-seus-os-nossos

Viver amor na família

O amor que nos une, nos torna uma família.

FAMÍLIA
Lei nº 12.010 de 2009 - Artigo 25 : "Entende-se por família extensa ou ampliada aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade." (Incluído pela Lei nº 12.010, de 2009)

“Na estação da vida fomos atraídos pelo vagão do destino que nos levou para uma maravilhosa viagem de encontro ao amor.”