Nossa história
    
Sexta, 10 Novembro 2017 23:30

Qual o significado de ser pai?

O Jornal Terceira Visão de Valinhos comemora o Dia dos Pais na quebra da barreira de discriminações

É na sociedade atual que se vê cada vez mais liberdade para que indivíduos se expressem com menos medo de que sejam feitas discriminações, mesmo que o preconceito esteja presente no cotidiano, inibindo traços de personalidade somente por receio de reações alheias.

Na semana do Dia dos Pais, que é representada pelo próximo domingo, dia 9, o Jornal Terceira Visão procurou dar ênfase a um dos principais focos de discursos de ódio e fóbicos, em gancho à própria data: casais homossexuais masculinos com filhos adotivos, ou seja, dois pais, ao invés de um. Este tipo de situação, que se torna cada vez mais comum, demonstra a grande difusão que há de termos como “família” ou “pai” na mentalidade contemporânea.

O professor de alemão Claus Peter O. Willi e o servidor público municipal Hélio Yoshinori Eto, que estão juntos há 25 anos e são casados desde 2012, são dois homens que são pais de duas crianças, Wesley e Fabioni, e orgulham-se de suas vidas e enfatizam grande felicidade e, como dizem, “amor incondicional” pelos filhos. Paulistas, moram em Itu há 15 anos, e afirma que suas vidas foram discretas até a adoção do primeiro filho, levando em conta as frequentes discriminações públicas pelas quais passavam, sendo considerados doentes e/ou anormais por muitos. Mesmo assim, Hélio e Claus consideram-se um casal como outro qualquer, a não ser pela questão social.


Lembrando-se do casamento que tiveram, o professor de alemão diz que pôde confirmar, na festa, com a presença de tantos amigos, que não fora preciso “desfraldar bandeiras e lutar” para comprovar a eloquência do exemplo que davam como casal homossexual. “Somos de uma geração que enfrentou todo tipo de preconceito, pois na década de 1990 – ano em que nos conhecemos e logo passamos a viver juntos - as questões não eram discutidas tão abertamente quanto hoje”, afirma, fazendo menção, inclusive, às atribuições preconceituosas antes feitas com relação à AIDS e à orientação sexual, fazendo com que não pudessem se expor tanto como namorados.

Mesmo que, em seu relacionamento, Hélio e Claus não levantassem hipóteses frequentes sobre a adoção de um filho, conta-se que certa experiência já havia sido adquirida, levando em conta os oito sobrinhos de Hélio. “Sempre que podiam, passavam finais de semana conosco. Isso deve ter despertado em nós esta vontade”, sublinha Claus.

Para, ainda, apontar para a grande batalha pela disseminação da mensagem que, hoje, pretendem mostrar à sociedade, o casal criou o site www.viveramornafamilia.com. “Temos que deixar de lado a questão do "sairdo armário" e apresentar a todos que não é a orientação sexual a medida de avaliação de conduta de quem quer que seja. Somos todos dignos de respeito, atenção, carinho e amor e temos todos o direito de colocar o amor em ação. Enquanto se discute a orientação sexual alheia, não se analisa como cada um conduz a sua própria”, diz Claus.

JTV: A ideia da adoção surgiu sob quais circunstâncias? Tanto a primeira quanto a segunda adoção foram como planejadas?
Esta vontade surgiu de uma forma natural. Estávamos juntos já há 20 anos e considerávamos que já era hora de tentar devolver à vida – que sempre nos deu tantas oportunidades – o pouquinho que fosse. Seria muito mais tranquilo continuar levando a vida que vínhamos levando sem grandes compromissos a não ser conosco mesmos e – em nosso ponto de vista – muito egoisticamente.
Nosso primeiro filho – Wesley – foi adotado apenas por mim, inicialmente. Não podemos nos esquecer de que vivemos ainda em um país bastante carregado de preconceitos e numa cidade bastante pequena. Assim, ele nos chegou sem grandes problemas desde que cumprimos todas as etapas necessárias e não houve, pelo menos que tenhamos percebido, nada que pudesse ter sido ocasionado pela nossa orientação sexual.
O processo foi um pouco demorado em função da destituição de poder paternal (do pai biológico) que, mesmo omisso, nossas Leis concedem o direito de contestação do Ministério Público por até três vezes. Entre conhecer nosso filho Wesley e a adoção foram aproximadamente dois anos. Quanto à adoção do Fabioni, nosso segundo filho, foi realizada em nome do casal e, entre conhecê-lo e ter a adoção concedida, demoraram 11 meses, exatamente.
Há de ressaltar-se aqui o excelente apoio que recebemos de todos os envolvidos no MP, Setor Técnico e cartório do FÓRUM de Itu em todas as fases do processo. É claro que alguma morosidade sempre há, mas creditamos esta questão à não existência de uma Vara exclusiva para Infância e Juventude, principalmente. Uma vez tomada a decisão da adoção nunca houve outro sentimento que não o de filho “parido” pelo coração.

JTV: Para vocês, o que significa ser pai? Nos dias de hoje, pode ser atribuído ao termo "família" um significado diferenciado do 'tradicional'?
É estar presente! É se importar! É amar e tentar fazer o melhor que se possa. É, antes de tudo, exemplificar. É fazer o máximo possível para que aquela centelha divina que habita em cada um possa se fazer plena no desenvolvimento do ser humano que nos é confiado como filho! É, plenamente, exercer a frase "ao próximo como a ti mesmo". Esta questão do tradicional e toda a carga que vem por trás me cheiram muito a bolor. O que vem a ser tradicional? Me dá a impressão de que a vida é estanque e que em algum momento deixa de evoluir. A vida tem uma dinâmica e no momento que deixamos de testar, conhecer, aprender, ser curioso, deixamos de viver. Querendo ou não, haverá sempre progresso! A grande questão é o medo que temos do novo e do diferente e – principalmente – de colocar a direção de nossas vidas em nossas próprias mãos, deixando de existir no "piloto automático".
A família, ao longo dos séculos, sofreu grandes transformações. Ora, se sofreu transformações, não cabe a palavra "tradicional". Família somos todos! Família é quem ama e busca por caminhos de melhor evolução de si próprio e dos que os cercam.

JTV: Em meio a revoluções e movimentos digitais em prol da homossexualidade e contra a homofobia, há, também, evidentemente, aqueles que expressam discursos de ódio e/ ou se fecham para as crenças alheias, tomando como verdade a própria. Estando nesta situação (homossexual e pai adotivo), o preconceito é principalmente presente em que aspectos do cotidiano? Qual a interpretação própria dada a estas situações discriminatórias?
Toda esta questão passou ao largo de nossas vidas. Eventualmente porque estávamos tão imbuídos de bons sentimentos na construção de nossa família que nunca percebemos diretamente e de forma mais séria – qualquer manifestação de homofobia.
Aqui ou ali, talvez uma expressão de menor importância que ficara exatamente como estava.
Tivemos a felicidade de compartilhar os "nascimentos" de nossos filhos com amigos maravilhosos que nos acolheram e aos nossos filhos de corações e braços abertos. Costumamos dizer que foram adoções coletivas, tamanho o envolvimento e carinho recebidos.
Sempre digo que nossos filhos são extremamente fortes e o desejo de serem amados muito grande por lançarem-se a uma nova vida dentro de uma família, não exatamente tradicional, e enfrentarem de forma muito tranquila toda sorte de preconceito ainda existente.

Neste sentido, recebemos também apoio decisivo da direção da escola aonde ambos estudam. Desde o primeiro momento nossa família e nossos filhos foram corajosa e amorosamente acolhidos e não tiveram dificuldades quanto à socialização com os colegas em relação à orientação sexual de seus pais. Não tenho como dedicar meu tempo aos que discriminam, julgam e tecem os mais disparatados comentários. Estamos muito mais direcionados a viver nossas vidas da melhor forma possível, ensinando sempre aos nossos filhos os valores de ética e de respeito ao próximo.

 

Viver amor na família

O amor que nos une, nos torna uma família.

FAMÍLIA
Lei nº 12.010 de 2009 - Artigo 25 : "Entende-se por família extensa ou ampliada aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade." (Incluído pela Lei nº 12.010, de 2009)

“Na estação da vida fomos atraídos pelo vagão do destino que nos levou para uma maravilhosa viagem de encontro ao amor.”